quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Maquinaria poética



Ao longe se via
Uma silhueta disforme
Encostada nos pilares de um vestíbulo.

No crepúsculo de um dia tedioso
Um passadio repleno
Para maquinar e entreter o vazio do existir:

Insinuando-se no limiar
Entre o íntimo e o externo
Uma sombra de pólvora
Com suas grenhas de leão
Sorve todos os que aventuram
Decifrá-la.

Seus olhos no espelho
Um recinto insueto.

Seu amplexo terno e apertado
Seduz e induz os tolos enamorados
A perderem a lucidez.

Suas pernas pequenas, arteiras
Andam, engatinham e logram
Qualquer Édipo ou Rei.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Em liberdade














Por entre os interstícios
Da austera Persona,
Olhos lassos alforriavam
Brincos-de-princesa.

Um dia tirado das mãos,
Inerte, mirando a outra sem alma.
Uma efígie pitoresca,
Porém, recusada.

A arma pesada,
Arremessou-a num canto qualquer.
O uniforme apertado,
Rasgou-o ainda no próprio corpo.

A víscera, agora desnuda
Dos ornatos aguerridos, acompanhava
Ritmada o ruído dos pés descalços.

O semblante liberto,
De ser aquele ser, ansiava poder
Apenas ser...

Podia adejar,
Mas, preferiu andar.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Neologismo II


Bebo muito, fumo mais ainda.
Mas invento novas maneiras
De se inventar palavras.
Cravei a ponta da caneta
Na palma da mão esquerda.
Da cópula entre o escarlate e o anil
Pariram-se novas dores
Para as terminações, flexões e implicações
Do inferno que foi
O passado-muito-mais-que-imperfeito
Do verbo “teadorar”!

sábado, 17 de dezembro de 2011

A urbe à deriva


Da imensidão acinzentada lágrimas
Calham e nos furtam o plano.
Desocupam o palco da liberdade
Transformando- o em um turvo espelho.
Pequenas Naus desbravam
Sendas até então inimagináveis
E aportam no velho 147.
Da imensidão acinzentada lágrimas
Assaz varrem e carregam os sonhos de consumo.
Uma tormenta de um prematuro estio.
Pélagos que se encontram,
Náufragos que se agarram em postes, em outdoors.
Cordas lançadas no alto mar da metrópole,
Um novo cabo das tormentas:
A urbe à deriva.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Acaso



Ritmos Meus.
Dança casual.
Livros tão grandes
Histórias tão curtas:
A face na face,
Lágrimas convergentes.
Um gemido...
Chão!
A vida na vida,
Secreções divergentes.
Um grito...
Não!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sim


Sim que se pudesse crer
Sem pudor de contradizer toda métrica.
Sim que se pudesse ser
Sem contradizer seu pudor de todo.
Sem precisar colocar no chão as rimas nuas,
Apenas suas,para dizer que sim.

sábado, 29 de outubro de 2011

Cárcere



Comprimidas, Sobrepostas, Acavaladas
Entre vãos apertados.
Coitadas!
Presas que carregam
O peso dos seus erros
Debruçadas entre as grades dessa prisão.
Qual a pena que escreve
Seus deslizes pelas entrelinhas,
Suas transgressões?
Suas formas, seus sons
São como sombras.
Estão a mercê das luzes do saber.
Fracas, quase apagadas,
Vítimas da superlotação
Não comportam mais tanta aglutinação.
Tornaram-se ambíguas,
Seres sem pessoa no plural.
Não são mais sujeitos,
E sim, interrogações.
Não há mais como distinguir seus semblantes,
Ou saber quem é quem ou o que,
Pois nessa página,
Tereza se escreve é com T
E alguém no final da linha
Terá que deixar de ser.